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Quarta-feira, Julho 02, 2008

Do jeito que o diabo gosta!

Recentemente adquiri um livro cuja leitura tem me cativado demais. “Cartas de um diabo a seu aprendiz” de C.S. Lewis (Crônicas de Nárnia). Ele é sem dúvida um dos grandes apologetas cristãos se não for o maior do Século XX (na minha opinião), dedicou essa obra cômica da ironia cristã a seu amigo J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Anéis). Neste livro bem humorado, mas de assustadora profundidade, C. S. Lewis expõe a comunicação (via cartas) entre Fitafuso, um diabo, e seu sobrinho Vermebile, um diabo jovem e novato na “arte da tentação”. Fitafuso tem como missão, ensinar a seu sobrinho as melhores maneiras de fazer o homem cair em tentação, ou melhor, ficar longe de Deus, O Grande Inimigo dos demônios.

No sétimo capitulo do livro em questão encontramos uma interessante parte da conversa que eu gostaria de comentar. Segue abaixo na integra o primeiro texto do capítulo mencionado. Meus comentários serão acrescentados em cor amarela e dentro de colchetes.

“Querido Vermebile,


Espanta-me que você ainda me pergunte se é mesmo essencial manter o paciente na ignorância quanto a nossa existência. Essa sua pergunta, pelo menos no pé em que nos encontramos, já foi respondida pelo Alto Comando. Nossa política, no momento atual, é de nos mantermos ocultos. Claro que nem sempre foi assim. No momento, enfrentamos um cruel dilema. Quando os humanos não acreditam na existência de demônios, não temos mais os agradáveis resultados do terrorismo direto e não podemos ‘produzir’ nenhum mago. Por outro lado, quando acreditam em nós, não podemos transformá-los em materialistas e céticos.
[Aqui temos uma importante constatação, para que sejamos materialistas e céticos é preciso ignorarmos qualquer contexto espiritual. Qualquer evento de natureza sobrenatural. A doutrina do materialismo e o comportamento cético não pode existir se não houver a negação da realidade espiritual. Mas o que me impressionou realmente, e demonstrou tanto a profundidade de C.S. Lewis, quanto a mente muito a frente de seu tempo é o que vem a seguir] Pelo menos não por enquanto. Tenho grande esperança de que, no devido tempo, aprenderemos como tornar a ciência dos homens emocional e mítica a ponto de passarem a desconfiar daquilo que na verdade é a crença na nossa existência (embora não sob esse nome) ao mesmo tempo que suas mentes se mantêm fechadas para o Inimigo[Jesus]. A ‘Força da Vida’, a veneração do sexo e outros aspectos da Psicanálise podem ser bastante úteis nesse sentido. Se pudermos produzir nossa obra perfeita – o Mago Materialista, o homem que não apenas utiliza mas que na verdade venera aquilo que dá o nome vago de ‘Forças’, ao mesmo tempo que nega a existência de ‘espíritos’ -, então saberemos que a batalha chegará ao fim. [Note que ele compreende a tendência de incutir a ciência em nossa dimensão espiritual. Ele sabia que cedo ou tarde a usaríamos para preencher o vazio e a necessidade espiritual. Veja o livro/filme “O Segredo” que nada mais é do que um modo mítico de ver a ciência, usa-se a física quântica para racionalizar o sobrenatural, assim como o filme “Quem somos nós”. O “Mago Materialista” é exatamente o que a doutrina de “O Segredo” está criando. Seres que usam, supostamente, sua racionalidade e o conhecimento cientifico para alcançar um poder que sempre foi supostamente sobrenatural objetivando apenas o materialismo. Isso me espanta demais, porque Lewis escreveu tudo isso no período da Segunda Guerra Mundial! Como ele sabia que chegaríamos a esse ponto tão cedo? Estamos caindo na armadilha, exatamente como ele entendeu que cairíamos.

As quartas-feiras a noite no canal Discovery Channel (que se supõe, promova conteúdo estritamente cientifico, você poderá assistir um programa ou mais cujo tópico são eventos sobrenaturais que não podem ser explicados pela ciência. Ou seja, há um enorme desejo de se entender e provar o mundo espiritual, mas já caímos na primeira armadilha, não cremos no demônio e seus comparsas e por isso achamos q eles não existem. Somos já materialistas e céticos, é possível que você tenha facilmente torcido o nariz com essa minha ultima frase. Mas o duro é que estamos caminhando para a segunda armadilha também, e já estamos nos tornado Magos Materialistas, tudo porque negamos o óbvio.]


Enquanto isso devemos obedecer sempre às ordens que nos são dadas. Não acho que você terá muita dificuldade para deixar o seu paciente na mais perfeita ignorância. O fato de ‘demônios’ serem predominantemente figuras cômicas na imaginação dos homens modernos será de grande ajuda. Se a menor suspeita da sua existência começar a surgir na mente dele, evoque a imagem de um ser trajando roupa colante vermelha, e convença o de que, já que ele não pode mesmo acreditar numa coisa dessas, ele não pode, portanto, acreditar na sua existência. Este é um método antigo para confundi-los, tirado de um velho manual”.

Quinta-feira, Junho 05, 2008

Malefícios do progresso: O tiro que saiu pela culatra.

Contemple a seguinte cena: Um homem do campo, habita com sua família em um vislumbrante vale. Sua casa é rodeada por bela natureza e seus animais estão espalhados por toda parte, assim como seus filhos a brincar. Sua família é pequena para as proporções campestres, tem apenas três filhos e três filhas. Sua esposa está sempre atarefada com o cuidado da casa e da família, provendo sempre uma saborosa refeição todas as manhãs, tardes e noites. Ele, trabalho no campo todos os dias, o seu rendimento é sua sobrevivência. Ao anoitecer, os lampiões são acesos, afinal esta casa não possui energia elétrica. Eles conversam e brincam esperam a tão esperada janta. Não há o som constante da TV no fundo da conversa, apenas o som dos animais noturnos. Após uma gostosa e simples refeição todos se reúnem por alguns minutos e logo se despedem para dormir. As 18:30 as crianças adormecem e as 19:00hrs todos já estão na cama. Ás 4:30 A Esposa desse homem se levanta para preparar o dejejum. As 05:00hrs, o galo canta, o homem acorda, o cheiro de pão quente e leite fervido impregna a casa, 30 minutos e todos estão na mesa. O dia já começou. As 06:00 todos estão em suas devidas atividades. E a vida recomeça.

Se você nasceu em cidade grande deve estar desesperado só de imaginar a vida simples dessa família. Talvez esteja indignado com tanto desprezo pelo que você considera “essencial”. Ou Talvez esteja morrendo de inveja dessa família. Mas o fato é que vivem uma vida incomparavelmente menos ansiosa e frenética que a nossa. E isso é bom, isso é paz, isso é felicidade.

Felicidade? Não é possível, eles não sabem de nada que ocorre no mundo, não sentem o prazer de uma boa musica, não conhecem as luzes do Time Square, nunca riram de uma boa piada em um seriado da TV por assinatura, não sabem o que Hollywood é capaz de recriar em seus filmes, não imaginam as atrocidades ocorridas na guerra do Iraque, e nem devem saber que o mundo está em ruínas por causa da maneira como temos, predatoriamente, tratado o planeta... São uns ignorantes, como podem ser felizes?

Assistindo a uma palestra do psicólogo Graciliano Martins, descobri que o desejo só existe quando há falta do objeto desejado. Ninguém deseja água se não estiver com sede, sombra se houver calor ou necessidade de se esconder e assim por diante. Portanto, ninguém é capaz de desejar o que não conhece, ou não sabe que existe. Por isso, nada do que temos e sentimos falta em nossa vidinha civilizada, faz falta aquela família imaginada no começo.

Em nosso caso especifico, o conhecimento que temos de tanta coisa nos faz desejar cada vez mais coisas. A onda do consumo também nos empurra a nossa lista de desejos, uma lista sempre crescente e atualizável. E nós somos aprisionados por essa realidade. Parece impossível viver num lugar que não tenha padaria, locadora, internet e muito menos luz. Só quando passamos um mês sem ver o Jornal da TV é que percebemos que não precisamos dele para viver, a vida continua quer você saiba o que ocorre nela ou não.

Segundo Stephen Kanitz, em artigo publicado na Revista Veja em Agosto de 2002 (ou seja, informação velha), a cada 18 meses o volume de informações dobra. Dobra! Ou seja, se alguém fosse capaz de saber de tudo, em apenas um ano e meio saberia apenas metade do que então existe. Logo, a cada 18 meses as possibilidades aumentam, o volume de desejos pode dobrar. O vazio, o buraco da falta, aumenta e somos cada vez mais aprisionados nesse sistema que chamamos civilização, progresso.

Hoje somos estressados, não temos tempo para nada, tudo tem que ser rápido, desde nossos alimentos até nossos relacionamentos. Vivemos em busca de uma felicidade que nunca vamos alcançar, uma Utopia. Perseguindo o inalcançável. Tentando o domínio do indominável. Como a informação de Kanitz é velha, é possível que esse volume de informações dobre agora em menos tempo. Quanto mais informações temos, maiores são as cobranças e metas.

Daí quando surgem em nossas sociedades, sociopatas de todo tipo, terroristas que parecem denunciar esse falso progresso, grandes golpes e pessoas cada vez mais individualizadas e egoístas, nos perguntamos porque. Porque o 11/09, porque o holocausto, porque desejamos tanto e a custa de tudo, até da nossa própria vida e paz?

Uma vez ouvi a seguinte história. Um dos conquistadores viu um índio deitado na rede descansando em pleno dia. Ele perguntou pro índio:

-Por que você não se levanta e vai trabalhar? – O índio, confuso, perguntou:

-Para que?

-Para acumular riquezas, bens... Se você trabalhar mais hoje acumulará e poderá guardar suas caças obtidas hoje para amanhã. E poderá trabalhar menos no futuro.

-Pra que? – Persistiu o Índio.

-Ora, pra você ter uma boa vida e descansar. – O índio retrucou sem nem pensar.

-Já estou fazendo isso.


Sendo um pouco mais pragmático. Acorde sua vida é uma ilusão, você não precisa nada daquilo que pensa ser necessário para viver. A vida, a paz e a felicidade não estão no consumo, no capitalismo ou na globalização. Vida simples. Passe tempo com as pessoas que ama, não com as coisas que sonha ou os desejos que tem ou as informações que aspira, que continuarão se multiplicando infinitamente.

Quarta-feira, Maio 28, 2008

Racismo ou Egoísmo velado?



As vezes me pergunto aonde começa o racismo e onde termina o dominio da raça branca? Esse vídeo postado no You Tube (logo abaixo) tem como titulo e intenção expor o racismo ainda muito presente em nossa sociedade moderna. Mas o que acho realmente, é que não se trata apenas de racismo, mas de um dominio indireto de "conceitos brancos" que são indiretamente impostos pela maioria. Um bom exemplo disso é a ditadura da moda e da beleza, que impõe padrões e estereotipos para as mulheres e homens de hoje. Somos subjugados por idéias indiretas todo o tempo, como por exemplo crer que magresa é sinonimo de beleza e saúde, dinheiro de felicidade, fé de irracionalidade e etc... Portanto, no vídeo abaixo temos um exemplo de como a maioria, branca, impõe culturalmente sobre todas as raças a idéia que lhes é confortável de uma superioridade da raça, mesmo que coletivamente inconsciente. A solução é quebrar o paradigma fundamentalista da centralização do eu. Em outras palavras, deixarmos de impor nossas próprias e doces idéias a todas as comunidades, culturas e raças. Essas crianças são vítimas do despreparo de pais, do impacto da mídia e da cultura branca. Quando crescerem e se tornarem individuos pensantes e independentes, talvez odeiem essa realidade que representam hoje.

Sempre bato nessa tecla e vou repetir mais uma vez, o pensamento da massa influência um unico individuo. Mídia é veículo de massa, portanto propaganda das idéias de uma maioria, que em grande parte encontra-se despreocupada com a vida alheia, e busca cada vez mais a divulgação de seus próprios ideais.

Esse vídeo não demonstra apenas uma realidade quanto ao racismo mundial, mas também demonstra como que idéias podem ser vendidas e compradas facilmente, até mesmo por quem não deveria se interessar por elas.

Quarta-feira, Outubro 31, 2007

Dexter – Sintoma de uma Sociedade Doente

Atualizado em: 12/12/2007.
CUIDADO: SPOILERS!
Há pouco mais de um ano estreou na TV americana, pelo canal Showtime, o seriado Dexter. A idéia é no mínimo criativa e isso atraí a atenção e curiosidade de muita gente, principalmente aqueles já influenciados pela nova onda de seriados que surpreenderam o público por sua originalidade como Lost, 24 horas e Desperate Housewives.

Dexter, é um seriado para quem não tem estomago. Pra falar a verdade, é preciso não ter mais algumas outras coisas também... Eu sei que vou revoltar alguns fãs (talvez vão querer me esquartejar), mas é só por que são fãs que se sentirão assim. Já compraram a sandice como entretenimento. Preciso confessar aqui, para que fique claro aos leitores, que me entreti muito com a série também. Não foi atoa que assisti até boa parte da segunda temporada. Entretanto, basta uma breve analise nos argumentos e não se poderá escapar da sensação de vômito (perdoem minha falta de eufemismo). Dexter é um entretenimento irresponsável.

Imagine um menino adotado que se descobre um psicopata ao desmembrar animaizinhos. Seu pai, um policial de Miami, percebe e começa ajudar seu filho a lidar com o problema. Ele começa ensinando o menino a se portar e se encaixar na sociedade, dando a ele um conjunto de valores e códigos que ele segue por puro condicionamento. Como psicopatas não sentem emoções, é uma tarefa difícil para ele se adaptar. O pai logo descobre que não poderá conter os instintos de seu filho por muito tempo e decide ajudá-lo a canalizar esses impulsos. Ensina o seu filho a matar e não deixar rastros. E matar somente aqueles que “merecem”, ou seja, assassinos, psicopatas e serial killers, como ele mesmo. Só não é mais fascinante porque é sórdido. Dexter, trabalha na policia fazendo a analise de sangue das cenas do crime. Mas ele mesmo é um assassino que deveria ser preso e quem sabe até executado, pelas leis americanas. Ele espreita suas vítimas, sempre com o argumento absurdo de ter uma boa razão para isso, afinal de contas ele só mata parias da sociedade. Ele prepara a cena do crime, as amarra sem roupas com uma fita adesiva transparente, faz seu pequeno show, dando argumentos para a vítima e pro expectador, escolhe a arma (sempre objetos de corte ou perfuração) e inicia o que ele mesmo chama de “ritual”, executando com sadismo as vítimas. Que sempre saem de cena dentro de vários sacos. Dito isto, considere, esse cara é o herói da trama!

Alguns dos detalhes abomináveis que gostaria de ressaltar: A sua primeira vítima foi a mando de seu pai que estava hospitalizado e dizia que sua enfermeira o estava drogando até a morte. Boa desculpa, não? Não! Bem, ele pega a velhinha, coloca pelada na mesa ritual, faz ela implorar pela vida e depois enfia-lhe uma faca até que o sangue jorre em sua roupa. Outra cena interessante é quando ele vai matar um rapaz, que ele pensava ser um serial killer, que por sorte no último segundo, explica que havia sido traumatizado por um estuprador na infância e por isso o matou a facadas. Ele estava para fazer “justiça”, mas parece que não era bem justiça assim. E se o menino não tivesse tempo de avisar? Teria sido esquartejado. Detalhe, o rapaz já tinha passado alguns anos na cadeia, pagando pelo que fez. A última cena que me impressionou foi a de um casal de “coiotes”, que matavam os cubanos que não pagavam a taxa de libertação ao chegar nos EUA. Ele matou os dois juntos, um assistindo a morte do outro, ao som de gritos de “eu te amo”, o que é extremamente cruel, sem a menor cerimônia. Só pra você não esquecer, esse cara é o Herói!

Como se não bastasse, o pai de Dexter o ensina a ser furtivo com a desculpa de ensiná-lo a sobreviver a cadeira elétrica. Em suma, o código de valores do pai diz que se seu filho for um monstro, ainda que mate muitas pessoas tem de sobreviver. Ele irresponsavelmente cria um monstro e o solta na sociedade. Dexter por sua vez diz não poder controlar sua necessidade de matar, isso é uma desculpa pra seus impulsos. Também agradece a um psiquiatra que o tratou, por tê-lo ajudado a aceitar quem ele realmente é, o esquartejando em seguida. Você acha que um psicopata deveria conformar-se com sua situação? Dexter também obstrui a justiça, cometendo crimes sérios dentro da corporação policial, como implantar evidências. E espera sinceramente que um Serial Killer continue solto a matar mais pessoas para continuar com seu mórbido fetiche competitivo. A glamourização é tão grande que a ultima morte que assisti, foi ao som de musica. Ocorre então a banalização da morte. A filósofa americana Sissela Bok, da Universidade de Harvard, nomeia essa circunstância de “fadiga da compaixão”, “um estado de espírito que torna possível testemunhar a brutalidade com distanciamento, sem envolvimento” (Super Interessante, 7 de Junho de 1999, p.p. 21).

Por fim, me pergunto, por que a sociedade americana se permite esse tipo de entretenimento? Por que num lugar onde pessoas pegam em armas e promovem o inferno, entretenimentos desse tipo são criados? Por que na terra dos serial killers esse tipo de entretenimento é impunemente promovido? O que garantirá que reprimidos psicopatas não saiam do armário, com boas desculpas para canalizar seus impulsos? Com tanta glamorização da sociopatia o que os impedirá? Talvez aquele que não soube do seu problema possa se reconhecer na tela, e em vez de buscar ajuda, tente se resolver como Dexter o faz. Sem ajuda profissional e cometendo crimes hediondos. Assim como pessoas normais são influenciadas pelo glamour da mídia, talvez, com quase certeza, psicopatas adormecidos não acionem algum botão que lhes destinará a reviver as “aventuras” de Dexter. Até porque, o personagem faz questão de ser desafiador e desafiar outros serial killers. É muito fácil se perguntar: “Quem será o melhor Serial Killer?” Pelo que aprendi do seriado, eles adoram competição. Numa competição de Serial Killers, quem você acha que vai sair perdendo? Engraçado, não fosse trágico e doentio. Eu já assisti mais do que deveria, pra mim chega!

Sexta-feira, Outubro 19, 2007

“Perdendo os critérios” – Ciência Moderna

Estive presente no I Seminário Internacional do Jesus Histórico na UFRJ. O convidado principal não foi ninguém menos que John Dominic Crossan, fundador do Jesus Seminar e um famoso acadêmico no estudo do Jesus histórico. É criticado por alguns quanto ao seu método, que parece ser o tendão de Aquiles de suas conclusões.

O seminário foi enriquecedor e espantoso. Espantoso porque descobri algo que não imaginava ter chegado ao ponto que chegou. A ciência está perdendo os critérios. Na busca de um discurso cada vez menos dogmático duas implicações devastadoras estão surgindo em direção ao método cientifico. 3 foram os casos analisados.

1 – Alguns pesquisadores escolheram citar textos de Jesus como sendo históricos e a outros textos do mesmo Jesus descartaram com base apenas no senso comum atual. O que não faz o menor sentido, tendo o texto sido escrito para uma audiência do I e II séculos d.C. Em outras palavras o que Cristo diz que corrobora suas idéias se sustenta sobre o Método Crítico Histórico, mas os textos irrelevantes para a idéia principal do pesquisador, ou mesmo que se oponham a ele, são descartados sem o menor critério.

2 – Outros pesquisadores basearam suas “descobertas cientificas” em fatores completamente hipotéticos. E ao menos, responsavelmente, assumiram tal dependência de hipóteses construídas sem evidência suficiente. Ou seja, estabeleceram todo uma pesquisa em bases instáveis (por não haverem comprovação alguma, apenas hipóteses teóricas) para concluir, no fim, aquilo que só poderia ser possível se comprovado fosse a hipótese, não provada, da base desta pesquisa. Assustadoramente especulativo.

3 – Por fim, o pior e mais medonho dos argumentos metodológicos da ciência que presenciei no evento: Mais de um dos palestrantes fizeram alusões ao pluralismo de idéias, a inexistência de verdades absolutas, mas verdades subjetivas. A materialização máxima do discurso anti-dogmático. “A ciência não pode ser dogmática”? Isso é uma grande ilusão pós-moderna. Afinal de contas quando se diz que a Ciência não pode ser dogmática, ou que não há verdades absolutas, ou que todas as verdades são subjetivas, então, estamos dogmatizando e estabelecendo a pluralidade de idéias como uma verdade absoluta (o que é extremamente contraditório com a própria proposta pluralista). Em outras palavras, não existe anti-dogmaticismo, mas sim oposição aos dogmas discordantes. O argumento do pluralismo não se auto sustenta. Um rio sempre tem 2 margens, não há como encontrar uma terceira.

O que nos traz a última das implicações desse discurso, a Ciência ficou sem critérios por não admitir a absoluta verdade. Embora esse discurso se baseie na constante evolução do conhecimento e das verdades cientificas no decorrer do tempo (aquilo que era verdade 50 anos atrás, hoje pode ser motivo de escárnio). Isso também é uma falácia, porque não se pode combater mentiras se elas não se posicionarem como verdades. A doutrina do pluralismo de idéias condena as boas idéias a se misturarem com más que nunca serão desmascaradas por nunca terem se apresentado como verdades incontestáveis. Faz parte do processo evolutivo cientifico que uma verdade se levante como absoluta para ser posta a prova e, se possível, seja combatida e substituída.

Há um outro fator problemático na questão de por especulações em posições de verdades cientificas para serem postas a prova. Como sua base é inconsistente, mesmo que resistam anos, serão frutos de estudos que não se saberá, talvez nunca, a relevância do tempo despendido nessa pesquisa. Ou seja, uma grande, e irracional, perda de tempo.

No fim esse é um problema encontrado nos egos humanos que não desejam ser contrariados, e prefere admitir verdades alheias como válidas desde que não se invalide a própria. Mas deixando de lado essa profundidade filosófica veja que a ciência está se transformando naquilo que mais odiou e repudiou desde seu nascimento. A fé cega. Fé cega na ciência. A mesma fé cega que a desconectou definitivamente da religião. Faz-se declarações “cientificas” baseadas em especulações infundadas, sem comprovação e tão relativas que me pergunto qual a relevância delas? Qual a relevância de pesquisas cientificas se a verdade absoluta não existe? Se o que ficará concluído é fruto da subjetividade da mente do pesquisador? Qual o objetivo da Ciência? Assim que a ciência reparar para o buraco que está descendo e começar a se fazer essas perguntas, quem sabe não vá sofrer uma crise de descrédito como o que a Religião vive hoje? Quem sabe não se auto-destrua? Espero que não. Mas não vejo relevância em argumentos subjetivos e especulativos, você vê?

Sexta-feira, Setembro 28, 2007

PESSOAS VALEM MAIS DO QUE COISAS


Sabe quando você encontra uma verdade que se torna parte de sua cosmovisão pra sempre? Aquele momento mágico quando você vê em perfeita delimitação uma idéia que, embora nunca tenha entrado em contato com você daquela maneira, é tão familiar? Isso aconteceu comigo quando meu professor de Comunicação Aplicada, há 1 ano atrás, delineou a frase mais simples do mundo, mas com a verdade mais pragmática que a minha inteligência social jamais se esquecerá. “Pessoas são mais importantes que coisas”.


Se me permite avançar nesse pensamento gostaria de amplia
r esse conceito para: “Vida é mais importante que coisas”. Define-se, portanto como “coisas” tudo aquilo que não vive. Eu sei, pra meia dúzia de gatos pingados pode parecer óbvio o que eu estou dizendo até aqui, mas digo para essa minoria, acreditem em mim, há uma maioria que não entende de maneira tão simples assim essa verdade.

É fácil, no mundo de hoje, que pessoas se apaixonem por coisas, e com isso passem por cima daquilo que mais importa na vida. Pessoas. Na verdade há uma super-valorização da pessoa quando isso ocorre, mas da pessoa errada, a pessoa valoriza os seus desejos acima dos valores externos e desejos alheios. Quando alguém rouba, mata, adultera (em todos os sentidos, sexuais, sociais e econômicos), engana, trai, passa por cima de outros interesses, magoa, quebra leis, maltrata um animal e etc... O que está ocorrendo é a super-valorização de si. O que, por conseqüência põe as coisas, que são os objetos de desejo desse individuo, acima das pessoas. Acima dos verdadeiros valores da vida. Nos tornamos aquilo que desejamos, portanto cada vez mais os homens se parecerão com coisas, e não com seres viventes. Coisas não se relacionam, se aproveitam, se servem, se usam. São intransigentes e impessoais no cumprimento de suas funções.

Impacto da inversão de valores de hoje

Alguém pode estar se perguntando, “mas porque relacionar-se é mais importante?” Semana passada assisti um filósofo na TV dizer uma das poucas frases televisivas que marcaram minha vida: “A família é a única instituição capaz de gerar vida”. Ficou claro? Só relacionamentos geram vida. É a contribuição mais básica e mínima que um ser humano pode dar a natureza, gerar vida. Qual o significado e a relevância de Plutão para o Universo? Nenhuma, mas e se houvesse vida lá? Então ele seria um dos mais importante planetas da Via-láctea juntamente com a terra. A vida por mais incompreendida que seja é o que conhecemos de mais valioso, seja na esfera pessoal ou na coletiva. Mesmo aqueles que já desistiram da vida ou não dão mais seu devido valor, o fazem por amor a ela.

Voltando ao assunto, entendemos com isso, que o mundo de hoje é materialista porque falta altruísmo. Em outras palavras o excesso de egoísmo nos consome, porque os relacionamentos humanos são substituídos por relações entre coisas e pessoas. Objetos e viventes. Desejos e realizações de um único individuo. O homem se relaciona mais consigo mesmo e menos com o resto do mundo. O Ipod é prova disso. Quanto mais tempo se passa com uma coisa, menos tempo se relaciona, e mais tempo se passa sozinho.

Isso não está garantindo nem de longe a sobrevivência da espécie humana, mas da espécie “individuo”. As relações humanas sempre existirão, mas elas tem cada vez menos significado, estão a serviço do individuo em sua busca pessoal de se realizar. Quanto mais esse fenômeno ocorre e se expande, mais as coisas se valorizam sobre a vida. Menos paz teremos, mais divisões, mais disparidades, menos felicidade, mais estresse, mais pressa, mais capitalismo, menos solidariedade e etc...

Estava conversando com um amigo sobre armas de pressão, e ele me contou que adorava matar passarinhos de longe. Então eu disse que não atirava em passarinhos, gostava de atirar em vidros e objetos que sofressem o efeito dos tiros. Ele imediatamente entendeu minha crítica velada e disse: “Você não atira em passarinho, mas atira nas coisas dos outros?” Entendi que ele havia interpretado a palavra “vidros” como referência as janelas dos meus vizinhos e a carros alvejados. Automaticamente, concertei o equivoco e expliquei que me referia a vidros que eu possuía e guardava só para essa atividade...Espera um pouco!!! Volta a fita...

Você notou que esse meu amigo pos os bens alheios acima da vida dos passarinhos? Talvez você nem tenha percebido isso, não acha que é hora de reconsiderar? Quer dizer que vidros de janelas, e bens alheios tem mais valor do que um animal que “é”, vive e sente individualmente? Esse animal tem responsabilidades sociais com sua prole e se relaciona com os outros iguais de sua espécie, por isso não vale mais do que um pedaço de vidro que custa menos de R$5,00?

Povo Lotuho ou Latika

“Para o africano tradicional, manter o equilíbrio e harmonia em relacionamentos dentro de sua família e tribo é extremamente importante. A posse de bens materiais é muito menos importante do que manter uma adequada interação com outras pessoas. Para o homem ocidental, por outro lado, o valor das pessoas tende ser medido pela quantidade de suas posses – terra, dinheiro, bens. Um resultado é a busca pelo sucesso que significa longas horas de trabalho e disposição para aniquilar outros trabalhadores, amigos e mesmo família para que se possa obter grandes lucros.

O povo Lotuho, do sul do Sudão, por algum tempo rejeitou o uso de boi para puxar arado, mesmo sabendo que o uso desses animais aumentaria sua produção de alimento. Com o boi, as grandes festas que aconteciam enquanto os campos eram preparados para a semeadura não seriam necessárias, e aquelas festas eram cruciais para manter os relacionamentos na sociedade. Melhor Ter menos alimento, eles diziam, do que arriscar a harmonia dentro do vilarejo”(Apostila 2006, Comunicação Aplicada, Professor Valdecir Lima).

Se ainda não ficou claro, lá vai:

Na vida o que há de mais importante não são coisas, mas relacionamentos.

Sem essa compreensão e a legitimidade de nossos relacionamentos, seremos apenas indivíduos sozinhos numa multidão de abandonados. O dia em que a carreira, emprego, oportunidades de vida pessoais, lucros, objetos de desejos e coisas em geral forem mais importantes que pessoas em geral na sua vida, esta na hora de reavaliar seus valores. Temos vivido para que? Para cumprir tabela no dever de existir? Para nos realizarmos ao custo de tudo e de todos? Esse comportamento na prática é o que define quem você é. Você é uma coisa ou uma pessoa? Pessoas se relacionam.

Segunda-feira, Setembro 17, 2007

A morte da esperança II – O Homem não é a solução?

Nesta última semana o Youtube publicou a Premiere mundial do novo clipe musical do grupo Matchbox20, chamada “How far we’ve come”(Quão longe nós chegamos). Não importa se você gostou do som da música, mas a letra que é realmente profunda. Fala sobre o mesmo assunto que nós estávamos conversando antes. O fim da esperança para a humanidade. Não importa também se estamos falando de fim apocalíptico, guerras nucleares ou aquecimento global, o mesmo comportamento Entrópico é bem notado por todo mundo.

Preste atenção na letra que reconhece a situação solitária do homem pós-moderno e niilista (pode não ter ninguém para se despedir) e nas imagens de fundo. Você verá as grandes conquistas da humanidade assim como uma alusão a nossos grandes fracassos. Então, no último coro, vemos no fundo o símbolo universal de alegria e comemoração: Fogos de artifícios enquanto ouvimos sair da boca do grupo palavras de antagonismo em forma de ironia. Em outras palavras, nós estamos “fingindo” ser gloriosos, entretanto “Vamos ver quão longe chegamos”. Segue a letra, porcamente traduzida por mim:


Estou andando no inicio do fim do mundo,

Mas está parecendo como uma manhã qualquer anterior,

Agora me pergunto: O que minha vida vai significar depois que acabar?

Os carros se movem como a 1 quilometro por hora

E eu comecei a olhar para os passageiros que acenavam “adeus”.

Você pode me dizer o que, algum dia, eu tive de especial?


Coro:
Mas eu creio que o mundo está ruindo ao chão

Oh bem, I acho que já vamos descobrir

Vamos ver quão longe chegamos

Vamos ver quão longe chegamos

Bem eu,creio, que tudo, está caminhando para um fim

Oh bem, eu acho, que vamos todos fingir,

Vamos ver quão longe chegamos

Vamos ver quão longe chegamos


Eu acho que já deu 10 horas, mas eu realmente não sei

Então não consigo me lembrar de ter sido atencioso uma hora ou mais

Comecei a chorar e não podia parar

Comecei a correr, mas não havia para onde correr

Sentei na rua e dei uma olhada em mim mesmo

E disse: Aonde está você está indo homem?

Você sabe que o mundo está condenado ao inferno

Diga adeus, se tiver alguém para dizer adeus

[Coro]

Se foi baby, tudo se foi

Não há ninguém nenhum apoio e ninguém está em casa

Foi legal, legal, foi tudo legal

Agora acabou pra mim e acabou pra você

[bis]


Mas eu creio que o mundo está ruindo ao chão

Oh bem, I acho que já vamos descobrir

Vamos ver quão longe chegamos

Vamos ver quão longe chegamos

Bem eu,creio, que tudo, está caminhando para um fim

Oh bem, eu acho, que vamos todos fingir,

Vamos ver quão longe chegamos

Vamos ver quão longe chegamos

Vamos ver quão longe chegamos

Vamos ver quão longe chegamos

Vamos ver quão longe chegamos

Vamos ver quão longe chegamos

Vamos ver quão longe chegamos

Vamos ver quão longe chegamos

Vamos ver quão longe chegamos

Quinta-feira, Setembro 13, 2007

Heróis em decadência – o fim da esperança

Tenho notado e me irritado muito com a forma como os heróis tem sido retratados atualmente. O renascimento dos heróis no cinema e nas séries de TV é apenas uma ilusão. Eles estão morrendo. Todos os últimos filmes de heróis lançados, apenas uma coisa foi comum a todos. O pensamento pós-moderno e a desesperança. Todos os heróis hoje são menos heróis, mais humanos (mesmo não sendo terráqueos), cheios de defeitos e com crises existenciais.

Não sei se ainda se lembram, mas o objetivo do herói sempre foi inspirar integridade, moralidade, valores e a esperança de que alguém nos salvará de nós mesmos. Entretanto, os heróis agora são mais um de nós. Não são mais íntegros, veja por exemplo Superman. Ele usa seus poderes para espionar e invadir a privacidade de Louis Lane, sua ex-mulher, agora casada com outro homem. Não bastasse isso, ele imoralmente alicia e a coloca em situação de traição a seu marido atual. Ainda no mesmo filme, o filho de 5 anos de Superman, mata um homem. Tudo bem, você pode dizer que ele merecia, mas e daí? Uma criança de 5 anos tem o poder de julgar quem vive e quem morre agora? E se ele fez sem querer, onde está a responsabilidade de quem tem poder? Essa segurança sempre nos foi dada pelos heróis que nos protegiam daqueles que irresponsavelmente usam seu poder.

Pense em qualquer filme atual, de X-Men à Tartarugas Ninja, de Rocky VI a Rambo 4, todos tiveram crises de existência em que seus poderes lhes representavam um peso muito grande e dificultavam de alguma forma no cumprimento de suas tarefas de salvar o mundo. Por que nossas novas histórias são assim? Porque queremos aproximar essas histórias da verdade ou porque estamos cada vez mais descrentes em tudo? Parece que a segunda lei da termodinâmica se faz presente até em nossas idéias e criações. Podemos ver na musica do grupo Norte-americano Nickelback, entitulada “Hero”, onde o compositor afirma não esperar mais um salvador:

“And they say that a hero can save us. Im not gonna stand here and wait… Someone told me love will ALL save us. But how can that be? Look what love gave us.
A world full of killing, and blood-spilling That world never came”.

“E eles dizem um herói pode nos salvar. Eu não vou ficar parado aqui e esperar...Alguém me disse que o amor irá nos salvar a todos. Mas como pode ser?

Olhe o que o amor nos deu. Um mundo cheio de assassinatos e derramamento de sangue. Aquele mundo nunca veio”.

Enquanto continuarmos olhando para o nosso umbigo só encontraremos defeitos e desapontamento. Super-Heróis não existem, mas não sei até que ponto deixar de aguardar por uma intervenção salvífica externa nos esta sendo útil? Cansamos de esperar ou estávamos olhando pro lado errado esse tempo todo? E se houver salvação fora da nossa superficial realidade? E se?... A ciência não tem a resposta, a religião diz que tem. Até onde você já investigou essa hipótese? Precisamos de esperança, não uma falsa esperança, rejeitamos isso (por isso humanizamos os heróis), mas uma verdadeira esperança. Você acha que isso existe? Eu creio que sim.

Devemos aceitar o finito desapontamento, mas nunca perder a infinita esperança.

Martin Luther King Jr.

Terça-feira, Agosto 21, 2007

Se te queres matar - Álvaro de Campos

Álvaro de Campos (um dos heterónimos de Fernando Pessoa) escreveu esse poema no mínimo impressionante. O texto é extremamente pragmático e analisa com frieza e razão as implicações de um suícidio tanto como motivação, como em eficiência. Porém é preciso fazer uma ressalva. O texto não é cristão. E por isso, ignora uma realidade do cristianismo que faz toda a diferença. Deus nos valoriza, temos valor e importancia para Ele. A ponto tal que morreu por nós, para que essa realidade descrita não fosse a verdade. Mas se você não crê em Deus, esse texto é um convite a reconsideração, pois qual é a esperança daquele que não vê sua origem significativa, proposital e valorizadora? Qual é a Esperança? Não há esperança! Não sem Deus. Porque o fim será apenas o narrado abaixo. Nada mais. Só mais um detalhe, não entenda que defendo a imortalidade da alma, ou qualquer desses pensamentos retributivos de céu e inferno imediatamente após a morte.

Espero sinceramente que esse Ode ao suicídio seja mais um convite a reflexão sobre a vida e seu real sentido do que uma pessimista visão de mundo. Há esperança em Deus. Para onde a vida segue sem Ele? A resposta esta na insinuação do poema...

"Se te queres matar, porque não te queres matar?Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,Se ousasse matar-me, também me mataria...Ah, se ousares, ousa!De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas A que chamamos o mundo?A cinematografia das horas representadasPor actores de convenções e poses determinadas,O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?De que te serve o teu mundo interior que desconheces? Talvez, matando-te, o conheças finalmente...Talvez, acabando, comeces...E de qualquer forma, se te cansa seres,Ah, cansa-te nobremente,E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,Não saúdes como eu a morte em literatura! Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...Sem ti correrá tudo sem ti.Talvez seja pior para outros existires que matares-te...Talvez peses mais durando, que deixando de durar... A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantadoDe que te chorem?Descansa: pouco te chorarão...O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,Quando não são de coisas nossas,Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte, Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...Primeiro é a angústia, a surpresa da vindaDo mistério e da falta da tua vida falada...Depois o horror do caixão visível e material,E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali. Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,Lamentando a pena de teres morrido,E tu mera causa ocasional daquela carpidação,Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...Muito mais morto aqui que calculas, Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova, E depois o princípio da morte da tua memória. Há primeiro em todos um alívio Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido... Depois a conversa aligeira-se quotidianamente, E a vida de todos os dias retoma o seu dia... Depois, lentamente esqueceste. Só és lembrado em duas datas, aniversariamente: Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste; Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada. Duas vezes no ano pensam em ti. Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram, E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti. Encara-te a frio, e encara a frio o que somos... Se queres matar-te, mata-te... Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!... Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida? Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera As seivas, e a circulação do sangue, e o amor? Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida? Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem. Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma? És importante para ti, porque é a ti que te sentes. És tudo para ti, porque para ti és o universo, E o próprio universo e os outros Satélites da tua subjectividade objectiva. És importante para ti porque só tu és importante para ti. E se és assim, ó mito, não serão os outros assim? Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido? Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces, Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial? Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida? Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente: Torna-te parte carnal da terra e das coisas! Dispersa-te, sistema físico-químico De células nocturnamente conscientes Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos, Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências, Pela relva e a erva da proliferação dos seres, Pela névoa atómica das coisas, Pelas paredes turbilhonantes Do vácuo dinâmico do mundo..."

Domingo, Junho 24, 2007

A Glória do EU

Quantas vezes você já viu atores, atrizes, artistas em geral ou mesmo pessoas que estão se candidatando a algum trabalho se descreverem como pessoas “determinadas”? Eu já me cansei de ver. Em quase toda definição pessoal ou traço de perfil hoje é possível encontrar palavras sinônimas como: “persistência, tenacidade, determinação, força de vontade” e etc...

Apesar de já ter me familiarizado com essa prática moderna de se auto definir foi uma brincadeira com um amigo (José Rodrigues Jr.) a respeito desse clichê emergente que me levou a procurar perfis de pessoas famosas na Internet. Não foi preciso perder tempo ou procurar demais, o primeiro perfil que encontrei tinha “como característica mais marcante” a não menos famosa “Determinação”. A busca prosseguiu e enquanto conversávamos pelo telefone nos admirávamos de quão comum era a presença dessa característica nas pessoas. Selecionei um bom exemplo para quem quiser se divertir com esse clichê também, segue o link dos 16 candidatos do programa “Aprendiz 4 – O Sócio” da Rede Record, com as auto-definições de cada candidato (http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u70802.shtml) .

E eles ainda não eram famosos quando se descreveram, o que indica o quanto que essa prática tem influenciado a todos dentro ou fora do contexto artístico. Talvez o contexto artístico nem seja o pai dessa definição como sendo a característica mais importante de um ser humano, mas com certeza eles são os maiores propagadores dessa idéia. Mas da onde vem essa tendência? Porque as pessoas precisam dizer hoje que são determinadas? Qual a vantagem de ser determinado? Se olhar a ficha dos candidatos do programa acima citado verá que muitos dos que se auto-proclamavam determinados hoje já estão fora do programa. Então o que há em ser determinado, persistente?

Ora, vejamos quem são os maiores propagadores dessa idéia novamente. Artistas e famosos. O que todos eles tem em comum? O tamanho do Ego. Não é de admirar que eles tenham abraçado com tanta vontade essa definição pessoal. A filosofia desse pensamento carrega duas engrenagens de conforto para o pensamento humano. A primeira é a cultura do mérito próprio. “Não há almoço grátis”. Aquela cultura que nos persegue desde o dia em que nascemos e temos que chorar para mamar, temos de ser obedientes para não ficar de castigo, temos que tirar boas notas para ganhar presentes e etc... Alguns podem dizer que essa não parece ser um mecanismo de conforto, mas é mais confortável saber que somos donos do nosso próprio destino e que sorte, azar ou mesmo Deus são cartas fora do nosso baralho da vida. Isso é o mesmo que o...

...segundo mecanismo: A facílidade de “quem procura, acha. Quem busca, alcança”. Eu só preciso me esforçar, trabalhar, me dedicar e tudo o que eu mais desejo será conquistado. Em outras palavras tudo depende de mim. Se está em mim, depende apenas de disciplina, de virtudes pessoais que só preciso desenvolver, assim posso chegar onde quiser. E se eu algum dia alcançar o sucesso é por minha própria causa. Embora o dito popular “Deus ajuda quem cedo madruga” persista em existir, é pura retórica, já arrancamos Deus do resultado de nosso trabalho a muito tempo. Tudo que eu conquisto foram as minha próprias virtudes que conseguiram aliadas, é claro, a minha determinação pessoal, força de vontade, força de realização. É pura ética behaviorista. A cultura do mérito próprio que nos faz girar em círculos. EU faço e acontece, EU busco e EU acho, EU luto e EU ganho, EU, EU, EU.

Isso é o que acontece quando olhamos para o mundo como um uma realidade pessoal a ser conquistada pela minha pessoa. Isso nos torna solitários. Talvez seja por isso que artistas não são bons em relacionamentos pessoais. Talvez seja por isso que alguns dos que se auto-proclamaram “determinados” no programa de TV tiveram problemas com relacionamento. Temos nos tornados cada vez mais individualizados em nome de nós mesmos.

Embora digamos que “Deus ajuda quem cedo madruga”, isso não tem sido verdade, nem de um jeito nem de outro. Embora Deus esteja na frase, o que queremos dizer com ela é: “porque sou assim, Deus me ajuda”. Em suma a glória do EU. Enquanto criamos que Deus estava no comando do mundo O usamos para alcançar nossos próprios intentos e propagamos tudo aquilo que é contra Ele em nosso período escuro. Depois colocamos todas as fichas no homem, e ascendemos a razão no topo de nossa doutrina de vida. Mas também nos decepcionamos quando vimos que nossa razão nos arrastou para guerras e ogivas nucleares. Agora já não nos resta nada, não temos mais em quem confiar, é bem nesse momento terrível que resolvemos então perpetrar nosso circulo vicioso e colocarmos mais uma vez todas as fichas no lugar errado, no EU. Mais individualizados do que nunca falamos de globalização, mas a intenção é uma só, a Glória do EU. Somos pós-modernos, somos niihilistas e temos certeza que com determinação chegaremos lá. Não queremos mais interferências da igreja, do estado ou de Deus, estamos sozinhos e sozinhos vamos conquistar o mundo. Só tem um problema pra que EU vença é preciso que você perca.

Em outras palavras o homem não pode resolver o seu próprio problema, nem com determinação, nem com persistência, nem com tenacidade, o que vamos fazer? Eu prefiro confiar nAquele que extrapola minha existência. Já faz anos que demonstramos nossa ignomínia, embora sejamos determinados.

Se Deus existe amigo, porque não deixa-Lo ser Deus dos homens?

Segunda-feira, Outubro 24, 2005

“Deus desapareceu no Ocidente”



Yusuf al-Qaradawi ao contrário do que possa parecer a primeira vista não é o nome de um novo terrorista islâmico. Trata-se de um Xeque renomado do Islã. Acadêmico e apresentador do programa Sharia e Vida, da TV Al-Jazira tem se apresentado como defensor de uma visão equilibrada do Islã e sua relação com o ocidente. Nesta entrevista, boa parte das perguntas que sempre sonhei perguntar a um oriental, é feita sem rodeio. É impressionante como o entrevistador consegue sintetizar nossas maiores curiosidades quanto à visão oriental do ocidente e a visão do Islã quanto aos extremistas de sua religião.

Não basta analisar o que Yusuf al-Qaradawi diz quanto ao Islã. É imprescindível avaliar o seu ponto de vista sobre nós ocidentais. Uma simples concatenada de suas palavras sobre o ocidente nos faz repensar nossos valores. É possível notar que não estamos tão longes um do outro. Parece até que um dia já fomos o mesmo povo. Talvez isso seja mesmo verdade. Talvez nossas raízes se cruzem em algum lugar. Só sei que enquanto nos modernizamos e crescemos em superioridade organizacional, tecnológica e cultural. Eles, que pareceram ter ficado estagnados, modernizaram-se (em parte) sem alterar seus valores morais. Não no sentido de que nossa sociedade ocidental tenha se corrompido moralmente (embora essa seja minha certeza), mas alterou-se extremamente renegando as nossas raízes mais longínquas. Que, diga-se de passagem, nos ligava ao oriente. Toda essa distancia se agrava ainda mais quando olhamos com superioridade os que ficaram para trás tecnológica e sócio-culturalmente, entretanto o efeito colateral de tal pensamento se reflete na mesma soberba do lado oposto. Eles se gabam de sua fidelidade a moral, portanto superioridade nesse aspecto.

O fato é que aquilo que desenvolvemos com superioridade quer ser assimilado (sem adições morais) pelo lado oriental. Sem o uso da força (interferências internacionais como a ocupação Americana. Que é o reflexo desse complexo de superioridade que o ocidente ostenta). Assim como nós, ocidentais, podemos assimilar novamente (também sem o uso da força – Sem terrorismo) aquilo que perdemos com nosso desenvolvimento: Parte de nossa moral. E é exatamente essa falta que nos leva a inimizade com o Oriente.

Ambos os lados devem se abraçar, a questão é como. Conscientização dos dois lados é a solução. O Xeque parece já estar fazendo a sua parte. Veja trechos da entrevista abaixo:

Que diferença faz, para uma criança morta por uma bomba no Iraque, na Chechênia ou em Israel, o fato de o assassino ser um terrorista ou um combatente de resistência?

Apenas para evitar mal-entendidos: no Islã, existem regras claras para proteger os civis, mesmo em tempos de guerra. Não se permite que pessoas não envolvidas na luta sejam atacadas. Quando o Profeta soube que uma mulher fora morta durante uma batalha, ficou furioso e emitiu ordens que ainda são seguidas hoje: nunca matar mulheres, nunca matar crianças, nunca profanar os mortos. Nesse édito, fica claro que é um crime transformar aviões lotados em mísseis e usá-los para destruir edifícios.

Por que nenhum juiz ou lei muçulmana expulsou oficialmente Bin Laden e seus seguidores da religião?

Condenamos seus atos, mas oponho-me categoricamente à idéia de expulsão. Expulsá-los seria cometer o mesmo pecado que eles cometem: eles querem transformar a nós e seus outros críticos em hereges. Chegará o dia em que terão de submeter-se ao cádi (juiz islâmico), mais ainda não avançamos tanto. Primeiro temos de decidir quais deveriam ser seus juízes.

E quanto a Zarqawi, que não só decapita vítimas indefesas, como também filma os assassinatos?

Ele trouxe ao Islã a maior vergonha imaginável. Para nós, é um criminoso. Nunca será demais condená-lo.

Os clérigos islâmicos ortodoxos não teriam perdido sua autoridade?

De modo nenhum. Há um novo espírito no Islã que se volta contra os excessos do modernismo, mas também contra o radicalismo exagerado. Também somos modernos e também lucramos com as grandes invenções que vieram do Ocidente, com a revolução da era da informação e a comunicação global.

No entanto, apesar da superioridade tecnológica do Ocidente, vocês se sentem moralmente superiores.

Condenamos o materialismo excessivo do Ocidente. Deploramos a perda da solidariedade e da fraternidade, a decadência da moral e as violações diárias da dignidade humana. Deus desapareceu - quase todos no Ocidente deixaram de falar sobre Ele. Há um ano, houve uma manifestação contra mim em Londres porque falei contra a homossexualidade. As pessoas parecem ter esquecido que não fui eu quem criou esse modo de pensar. É parte da ordem de Deus transmitida por Moisés e mencionada até por Jesus.

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Neste parágrafo é preciso abrir um parênteses. Note que a condenação do materialismo é uma prática que vem se tornando comum em nosso meio ocidental. Uma tendência de “volta as origens” quando o que ditava as regras de consumo era a necessidade. A compra de itens irrelevantes é cada vez mais tachada por aqueles que se consideram um pouco mais pensantes em nossa sociedade ocidental (embora muitos façam isso por puro modismo). Com isso notamos que um dos pontos de discussão deles pode ser racionalmente debatido dentro de nossa sociedade sem maiores crises.

A falta de solidariedade e a fraternidade têm se tornado uma realidade no ambiente competitivo e individualista da pós-modernidade em globalização. A decadência moral é galopante, entretanto para alguns isso é uma questão de ponto de vista.
Quanto as “violações diárias da dignidade humana” é uma verdade tão relativa que eles próprios, com suas leis islâmicas, podem se enquadrar neste aspecto também.

É impressionante como que nas frases seguintes desta resposta do Xeque encontra-se uma enorme verdade que nos passa desapercebida. O ocidente abandonou a sua crença em Deus. Os direitos “humanos” atropelaram os conceitos morais da fé Cristã. O mais impressionante disso tudo é que os ocidentais são em sua maioria Cristãos. Nesse aspecto Yusuf al-Qaradawi demonstrou maior crença nos ensinos de Cristo do que nós Cristãos-ocidentais. Que em nossa modernização nos secularizamos indiscriminadamente. A um ponto tal que somos capazes de engarrafar nossa fé dentro de nossos novos valores éticos que centralizam o Homem como o ser mais digno de respeito do universo. Assim, subjulgamos Deus e Seus "caprichos" (leis morais) aos nossos valores distorcidos.

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Em Berlim, um pregador muçulmano foi filmado recentemente afirmando que os cristãos não tem o direito de ir para o céu.

Isso é totalmente absurdo e inaceitável. Todos os devotos das religiões reveladas - muçulmanos, cristãos e judeus - vão para o Paraíso se forem honrados e acreditarem em Deus. Tampouco existe algo dizendo que eles não podem viver uns entre os outros nem se casar. Mas isso, é claro, não muda o fato de que o Islã é uma religião que oferece a salvação a toda a humanidade.

Por essa eu não esperava. A mesma mentalidade Cristã-moderna permeia o pensamento muçulmano. “Todos podem ser salvos.”

Graças a seus programas semanais na TV Al-Jazira, o sr. se transformou numa personalidade importante para milhões de muçulmanos na Europa. Eles devem obedecer ás leis dos países onde vivem, sem exceções?

A fim de resolver esse problema, fundamos o Conselho Europeu para a Fatwa e a Pesquisa - do qual sou diretor - há oito anos, em Londres. A cada conferência, conclamamos os fiéis a obedecer ás leis dos países onde vivem. Eles se comprometeram a fazer exatamente isso quando foram para a Europa. E também são obrigados a respeitar a propriedade dos não-muçulmanos. Onde quer que vivam, os muçulmanos têm a obrigação de integrar-se á sociedade - e aceitar aquilo que a sociedade exige deles - sem abandonar sua fé.

[ Reportagem de Der Spiegel publicada na edição de domingo (23/10/2005) do jornal Estado de São Paulo. ]