Quarta-feira, Outubro 31, 2007

Dexter – Sintoma de uma Sociedade Doente

Atualizado em: 12/12/2007.
CUIDADO: SPOILERS!
Há pouco mais de um ano estreou na TV americana, pelo canal Showtime, o seriado Dexter. A idéia é no mínimo criativa e isso atraí a atenção e curiosidade de muita gente, principalmente aqueles já influenciados pela nova onda de seriados que surpreenderam o público por sua originalidade como Lost, 24 horas e Desperate Housewives.

Dexter, é um seriado para quem não tem estomago. Pra falar a verdade, é preciso não ter mais algumas outras coisas também... Eu sei que vou revoltar alguns fãs (talvez vão querer me esquartejar), mas é só por que são fãs que se sentirão assim. Já compraram a sandice como entretenimento. Preciso confessar aqui, para que fique claro aos leitores, que me entreti muito com a série também. Não foi atoa que assisti até boa parte da segunda temporada. Entretanto, basta uma breve analise nos argumentos e não se poderá escapar da sensação de vômito (perdoem minha falta de eufemismo). Dexter é um entretenimento irresponsável.

Imagine um menino adotado que se descobre um psicopata ao desmembrar animaizinhos. Seu pai, um policial de Miami, percebe e começa ajudar seu filho a lidar com o problema. Ele começa ensinando o menino a se portar e se encaixar na sociedade, dando a ele um conjunto de valores e códigos que ele segue por puro condicionamento. Como psicopatas não sentem emoções, é uma tarefa difícil para ele se adaptar. O pai logo descobre que não poderá conter os instintos de seu filho por muito tempo e decide ajudá-lo a canalizar esses impulsos. Ensina o seu filho a matar e não deixar rastros. E matar somente aqueles que “merecem”, ou seja, assassinos, psicopatas e serial killers, como ele mesmo. Só não é mais fascinante porque é sórdido. Dexter, trabalha na policia fazendo a analise de sangue das cenas do crime. Mas ele mesmo é um assassino que deveria ser preso e quem sabe até executado, pelas leis americanas. Ele espreita suas vítimas, sempre com o argumento absurdo de ter uma boa razão para isso, afinal de contas ele só mata parias da sociedade. Ele prepara a cena do crime, as amarra sem roupas com uma fita adesiva transparente, faz seu pequeno show, dando argumentos para a vítima e pro expectador, escolhe a arma (sempre objetos de corte ou perfuração) e inicia o que ele mesmo chama de “ritual”, executando com sadismo as vítimas. Que sempre saem de cena dentro de vários sacos. Dito isto, considere, esse cara é o herói da trama!

Alguns dos detalhes abomináveis que gostaria de ressaltar: A sua primeira vítima foi a mando de seu pai que estava hospitalizado e dizia que sua enfermeira o estava drogando até a morte. Boa desculpa, não? Não! Bem, ele pega a velhinha, coloca pelada na mesa ritual, faz ela implorar pela vida e depois enfia-lhe uma faca até que o sangue jorre em sua roupa. Outra cena interessante é quando ele vai matar um rapaz, que ele pensava ser um serial killer, que por sorte no último segundo, explica que havia sido traumatizado por um estuprador na infância e por isso o matou a facadas. Ele estava para fazer “justiça”, mas parece que não era bem justiça assim. E se o menino não tivesse tempo de avisar? Teria sido esquartejado. Detalhe, o rapaz já tinha passado alguns anos na cadeia, pagando pelo que fez. A última cena que me impressionou foi a de um casal de “coiotes”, que matavam os cubanos que não pagavam a taxa de libertação ao chegar nos EUA. Ele matou os dois juntos, um assistindo a morte do outro, ao som de gritos de “eu te amo”, o que é extremamente cruel, sem a menor cerimônia. Só pra você não esquecer, esse cara é o Herói!

Como se não bastasse, o pai de Dexter o ensina a ser furtivo com a desculpa de ensiná-lo a sobreviver a cadeira elétrica. Em suma, o código de valores do pai diz que se seu filho for um monstro, ainda que mate muitas pessoas tem de sobreviver. Ele irresponsavelmente cria um monstro e o solta na sociedade. Dexter por sua vez diz não poder controlar sua necessidade de matar, isso é uma desculpa pra seus impulsos. Também agradece a um psiquiatra que o tratou, por tê-lo ajudado a aceitar quem ele realmente é, o esquartejando em seguida. Você acha que um psicopata deveria conformar-se com sua situação? Dexter também obstrui a justiça, cometendo crimes sérios dentro da corporação policial, como implantar evidências. E espera sinceramente que um Serial Killer continue solto a matar mais pessoas para continuar com seu mórbido fetiche competitivo. A glamourização é tão grande que a ultima morte que assisti, foi ao som de musica. Ocorre então a banalização da morte. A filósofa americana Sissela Bok, da Universidade de Harvard, nomeia essa circunstância de “fadiga da compaixão”, “um estado de espírito que torna possível testemunhar a brutalidade com distanciamento, sem envolvimento” (Super Interessante, 7 de Junho de 1999, p.p. 21).

Por fim, me pergunto, por que a sociedade americana se permite esse tipo de entretenimento? Por que num lugar onde pessoas pegam em armas e promovem o inferno, entretenimentos desse tipo são criados? Por que na terra dos serial killers esse tipo de entretenimento é impunemente promovido? O que garantirá que reprimidos psicopatas não saiam do armário, com boas desculpas para canalizar seus impulsos? Com tanta glamorização da sociopatia o que os impedirá? Talvez aquele que não soube do seu problema possa se reconhecer na tela, e em vez de buscar ajuda, tente se resolver como Dexter o faz. Sem ajuda profissional e cometendo crimes hediondos. Assim como pessoas normais são influenciadas pelo glamour da mídia, talvez, com quase certeza, psicopatas adormecidos não acionem algum botão que lhes destinará a reviver as “aventuras” de Dexter. Até porque, o personagem faz questão de ser desafiador e desafiar outros serial killers. É muito fácil se perguntar: “Quem será o melhor Serial Killer?” Pelo que aprendi do seriado, eles adoram competição. Numa competição de Serial Killers, quem você acha que vai sair perdendo? Engraçado, não fosse trágico e doentio. Eu já assisti mais do que deveria, pra mim chega!

11 comentários:

gabrielgalvao disse...

Não concordo muito não, até porque a série mostra o tempo inteiro o conflito que ele tem com sua situação, e de modo algum estimula as pessoas a fazerem o mesmo !

Agora se você tivesse falando da série de filmes Jogos Mortais, aí eu assinaria embaixo, pq não há lógica na matança cheia de crueldade que as pessoas pagam pra sofrer quando assistem !!

Diego Ignacio disse...

Gabriel, você tem razão quando diz que o seriado não "estimula as pessoas a fazerem o mesmo" se você está falando de pessoas normais. Mas eu me referia especificamente a sociopatas. Estes não discernirão com clareza. Até porque o próprio Dexter não discerne. Ele vive pelo "código de Harry", que é um tipo de ética behaviorista muito da MAQUIAVÉLica, se sociopatas se apropriarem dela como Dexter faz o tempo todo no seriado, teremos uma legião de assasinos com moral maquiavélica, "fazendo justiça" ou justificando sua natureza e conduta. E mesmo Dexter questiona de vez em quando o código que o mantém "na linha" (se dá pra chamar de linha). Pedir que um personagem de ficção mantenha sua integridade ou mesmo voe pelo cenário se for um super herói não é dificíl. Dificíl mesmo é fazer pessoas reais agirem como deveriam. Por outro lado, a "fadiga da compaixão" afeta qualquer um, depois de tanto pedaço de gente as mortes vão ficando muito comuns.

Giselle disse...

Concordo plenamente com você Diego. Não só neste seriado como em outros siticons, filmes, e demais gêneros matar o próximo se tornou uma atitude banal e até mesmo normal. Este tipo de entretenimento não pode ser saudável para nossa mente, repare que muitas vezes começamos a "torcer" pelo bandido, principalmente quando colocam nele uma roupagem de sofrido, doente, engraçado ou até mesmo um bom moço levado pelas más circunstâncias da vida. Devemos cultivar a mente sã, deixá-la longe do que a embota. Podemos até não sair por aí fazendo igual,mas qual é objetivo de ver uma coisa destas? Acho perda de tempo... Também não gosto porque fere meus princípios e valores (Não matarás...) Pode até parecer radical mas se não concordo com a matança na vida real, porque concordaria na ficção? Estaria sendo arbitrária.
Eu particulararmente não me divirto vendo um monte de gente morrendo, acho os estes tipos de roteiros doentios e muito loucos, só servem mesmo para promover a violência e a impunidade.
Parabéns pelo blog, ele nos leva a pensar, refletir e debater temas de profunda importância da atualidade.

Luciano disse...

Olá, Diego! Eu acho que você talvez tenha assistido a série porque eu falei dele pra você. Respeito sua opinião, e concordo com muita coisa. Só não me considero alguém sem senso crítico ou bom senso. Tanto que avaliei muito do que escreveu, e reconsiderei algumas impressões. Fiquei um pouco triste por você ter pensado assim. Mas deixa pra lá. O que o seriado passa (e talvez psicopatas pensem diferente) é que Dexter não é herói. Ele só pensa que é. E ao mesmo tempo a sociedade é criticada por apoiar esse comportamento. Morte e assassinatos nós vemos em todas as séries, sob a justificativa de "um bem maior". Talvez Dexter nos ajude a ver qualquer assassinato como ele é, com ou sem mutilações, uma verdadeira aberração. E desrespeito a Deus. Abração!

Luciano disse...

Ah! E parabéns pelo blog! Realmente muito legal!

Diego Ignacio disse...

Hahaha, Luciano, eu sinceramente não pensei em vc em momento nenhum, meu amigo, exceto quando eu assiti a primeira vez, mas as duras palavras usadas no artigo são apenas um estilo agressivo. Afinal de contas, a minha crítica aqui é quanto a irresponsabilidade de se exibir um seriado com esse conteúdo na terra dos Seria Killers. No impacto que o seriado pode causar a mentes patológicamente afetadas. É claro que comento também o impacto do mesmo em nós, eu me incluo nesse esquema, mas isso como vc disse, é irrelevante ao numero de mutilações. Morte sempre terá esse efeito, seja como for.

Mas desculpa aí, se me expressei mal. Essa frase e a seguinte foi uma daquelas que eu fikei olhando e pensando, "boto ou não boto"?!? Botei! rs

Luciano disse...

Valeu, amigo! Vou ver se participo mais no blog. Abração!

Fernando disse...

Diego, Diego...

Que coisa triste esse blog.

Não quero criticar o que você escreveu, porém você ofende quem gosta da série.

A minha questão é:
Como você sabe exatamente o que pode influenciar ou não alguém que tenha alguma patologia psicológica ?

Pelo que vi, você é bacharel em teologia, o que não lhe torna um conhecedor da psicologia.

Mas o que me levou a postar nesse blog foi o fato de você escrever o seguinte comentário "talvez vão querer me esquartejar", ou seja, com isso você quis propositalmente afirmar que quem não estiver de acordo com o que você impôs, é um psicopata, sociopata etc..

Bem mestre..
Eu gosto da série, não sou psicopata, e não concordo com suas justificativas infundadas que são baseadas em puro achismo..
Acredito que você não será um bom critico, já que lendo o seu texto eu me senti um doente mental.
Meu objetivo com esse texto não é lhe ofender, mas o que você postou é uma opnião muito pessoal e só concordará com você quem compartilha do mesmo pensamento.
Passar bem!.

Diego Ignacio disse...

Fernando, Fernando...

É uma pena que talvez você nunca mais volte aqui, mas sinto muito por ter sido mal compreendido. Não sei se notou, mas todo o tempo eu questionei e critiquei duramente a irresponsabilidade do enredo, do conteúdo, não a qualidade da série como entretenimento. (1)Nunca quis realmente ofender ninguém, e me arrependo de ter tentado trocadilhos como o citado acima, cuja unica razão de existir é provocar, dar uma pitada de senso de humor. Se te ofendi, desculpe, você não é o primeiro e sinto que o tiro saiu pela culatra. Até porque não pretendo ser hipócrita, fica claro e óbvio pra quem quiser que eu assisti a primeira temporada inteira (e parte da segunda). E não fiz isso, por puro radicalismo ético, necessidade de crítia. Fiz porque gosto da série tanto quanto você. Mas isso muda o conteúdo? Muda o impacto social?
(2) Quem te falou que por ser Bacharel em Teologia eu não posso falar de um pouco de psicologia? Falácia Ad Hominem. Eu não me arroguei hora alguma de ser conhecedor de Psicologia, apenas usei uma dialética simples e lógica.
(3) Quanto a citação, acho que você ela a sério demais, e eu jamais cometeria o crime dialético, de encurralar meus opositores com falácias como a que você propôs que eu disse. Era uma brincadeira, se isso não ficou óbvio pra você. E não me referia a opositores de pensamento, mas "fãs".
(4) Obrigado por postar, por ler. Lamento por não ter encontrado aqui abrigo para sua posição. E dá próxima vez que for criticar não comece com a frase: "Não quero criticar o que você escreveu", não tem problema.

(5) Você disse: "já que lendo o seu texto eu me senti um doente mental" é subjetivo o suficiente para impugnar o texto, afinal, o que você "sente" não é o parâmetro em que se baseia o texto. Mas confesso que minha comunicação deve ter falhado em algum lugar, porque nem de longe eu queria que você se sentisse assim. Não se esqueça que eu assisti porque quis o mesmo conteúdo que você.

Quanto ao "puro achismo", pode ser reciproco. Afinal, a hora que eu precisar postar bibliografias num blog, não estarei escrevendo um blog, mas uma tese, se eu quiser isso escrevo um livro. Não acho que seja realmente necessário.

Abraços! Desculpe as ofensas!

PS: Espero por mais destes agora que a série estreiou no Brasil.

Patrícia disse...

Bem, desculpe a minha intromição, mas acho que você, Diego, levou a série a sério demais...
Sabemos e somos completamente cientes que é entretenimento. Na ficção ficou bastante interessante e criativo, inegavelmente. Acho que o receio de estas coisas aconteceram na vida real também, te privou de avaliar os altos do seriado para avaliar o efeito que pode causar numa sociedade.
Eu, particurlamente, tenho pavor de ver sangue, mortos, etc... E foi o que mais mais me surpeendeu: dessa vez não me vi tendo ânsia de vômito ou a ponto de desmaiar (exagero), mas vi um estilo, o chamodo "humor negro", esse tipo de humor não é a maioria das pessoas que percebe, infelizmente.
Enfim, precisei colocar minha opinião sem pormenorizar a sua que é muitíssimo bem colocada.
Mas a série é boa!

Diego Ignacio disse...

Patrícia,
obrigado pelo comentário e pela sobriedade em expor sua opinião.
Talvez eu tenha realmente passado esta idéia, mas não foi minha intenção tratar com radicalidade o seriado. O tema abordado é sérissimo. Não acho que Dexter criará um batalhão de sociopatas treinados, nem que fará com que toda uma sociedade se corrompa, mas acho que indiretamente ele promove a coisa errada. Claro que ri com as tiradas de humor negro, como frisei bem, gostei do entretenimento e concordo que é "bastante interessante e criativo", mas não tenho o "receio de estas coisas acontecerem na vida real também" e nem acho que me "privei de avaliar o efeito que pode causar numa sociedade". Se você é um individuo pensante e responsavel não pode outorgar a toda a massa restante os mesmos valores. Agora, sua ausência de "ânsia de vômito" me preocupou, será "fadiga da compaixão"? Você é quem deve saber. Lembre-se o seriado é bom, muito bom. Mas isso não faz dele valoroso.